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Filmes de cabeceira

14/05/2004 22:01
DELICADA ATRAÇÃO
(Beautiful Thing)
Dirigido por Hettie MacDonald



Sinceramente, não gosto da mania de certos distribuidores brasileiros de darem nomes a filmes sobre homossexualismo que de certa forma reforçam o preconceito que pretendem combater: coisas como "Estranha forma de amar", "Um amor diferente" ou coisas assim. Por que uma relação entre dois rapazes tem de ser "delicada", ou mais delicada do que qualquer outra? Prefiro o nome original, explicado assim pelo autor da peça original e roteirista do filme, Jonathan Harvey: "Quis mostrar apenas que coisa linda (a beautiful thing) pode ser o amor entre duas pessoas, sejam de que sexo forem."

As duas pessoas em questão são dois adolescentes, Jamie (Glen Barry) e Ste (Scott Neal), que são colegas de escola e vizinhos de porta num prédio em Thamesmead, um bairro de Londres habitado pela chamada "working class", a classe média baixa inglesa, com seus hábitos e sua maneira de falar bastante diferentes da "middle class", mesmo hoje. Jamie é um rapaz tímido e sensível que mora com a mãe Sandra (Linda Henry), que trabalha como gerente de um pub e namora um rapaz mais novo e mais culto que ela, Tony (Ben Daniels), o que ocasiona alguns choques culturais entre os dois. Já Ste gosta de esportes mas sofre abusos por parte do pai alcoólatra e do irmão hooligan. A única amiga de ambos é a vizinha Leah (a ótima Tameka Empson, que rouba todas as cenas em que aparece), uma garota negra que abandonou a escola e vive se drogando e se embriagando em raves, mas é fanática pela música da falecida cantora Mama Cass Elliot, do grupo The Mamas and The Papas, o que faz com que todas as canções da trilha sonora sejam dela ou do grupo que a tornou famosa.

Como Ste é frequentemente espancado pelo pai e pelo irmão, vai se refugiar no apartamento vizinho, onde divide a cama com Jamie. Tal proximidade acaba se traduzindo em paixão. A diretora Hettie MacDonald sabe dosar sensibilidade, humor e um erotismo bastante delicado (agora sim, o adjetivo se aplica) nas cenas entre os dois garotos. Basta dizer que o primeiro beijo deles acontece enquanto na sala a mãe de Jamie e seu namorado assistem A noviça rebelde, justo na cena em que o jovem carteiro namora a filha mais velha do capitão e canta pra ela Sixteen going on seventeen.

Embora o filme fale de jovens sem grandes perspectivas, que sofrem abusos em casa e na escola e ainda têm que enfrentar o preconceito por serem gays, Beautiful thing é um dos filmes mais alto-astral que eu já vi, e a trilha sonora com a música californiana do The Mamas and the Papas contribui muito para esse clima. O final do filme, em sua simplicidade, é um dos finais mais bonitos do cinema em todos os tempos, mas eu não vou contar pra deixar vocês com vontade de ver o filme.

Curiosidades sobre The Mamas and the Papas:

a) a personagem Sandra menciona no filme que Mama Cass teria morrido engasgada com um sanduíche. Esse é um dos mitos mais famosos do mundo da música pop, mas não tem nenhum fundo de verdade. A cantora na verdade morreu de um ataque cardíaco sofrido logo após um show em Londres, em 1974, com apenas 32 anos. O autor da peça que deu origem ao filme, Jonathan Harvey, explica no encarte do cd com a trilha sonora que quando ele era criança sua mãe lhe contava essa história para que ele comesse devagar e não se engasgasse, mas só conseguia fazer o garoto ficar se perguntando por que diabos uma cantora se chamava Mama?!!!

b) outro mito sobre Mama Cass mencionado no filme é que a cantora a princípio não seria aceita no grupo de John Philips porque sua voz não conseguia atingir notas mais altas, e que seu alcance vocal mudou depois que ela bateu a cabeça num cano, em um acidente caseiro. A verdade, bem mais prosaica, é que John Philips hesitava em incluir a gordinha Cass em sua banda por achar que o contraste com a loira e esbelta Michelle Philips poderia "assustar" o público. Felizmente, nesse caso, venceu o talento.

c) eu tive o privilégio de assistir um show do The Mamas and the Papas, em Santos, no começo dos anos 90. As duas cantoras originais, Mama Cass e Michelle Philips (que hoje é atriz de televisão) haviam sido substituídas por cantoras da Broadway, e Denny Doherty foi substituído pelo também lendário Scott McKenzie, intérprete do hino dos anos 60 San Francisco (When you come to San Francisco/ Be sure to wear some flowers in your hair...). Infelizmente, o único integrante original do grupo presente na turnê brasileira, o já falecido fundador John Philips, não se apresentou em Santos porque havia tido uma indigestão ou algo parecido. Mesmo assim, foi um show inesquecível!



You've got to
make your own kind of music
sing your own special song
make your own kind of music
even if nobody else sings along
(Barry Mann/ Cynthia Weil)


Publicado originalmente no dia 26 de maio de 2003, no Lost in the movies.

E não deixem de conferir meu novo blog, intitulado muito humildemente Music is my air, movies my food, art my life.
enviada por will robinson






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