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Filmes de cabeceira

10/07/2004 20:39
Como uma das minhas turmas estava lendo uma versão simplificada de Romeu e Julieta, quis rever as três mais famosas versões cinematográficas da mais famosa história de amor, a fim de selecionar algumas cenas para mostrar a meus alunos. E constatei que cada uma delas é revolucionária a seu modo.

ROMEU E JULIETA
(Romeo & Juliet)
Dirigido por Franco Zeffirelli



A versão dirigida por Franco Zeffirelli em 1968, com Leonard Whiting e Olivia Hussey no papel dos amantes de Verona, foi o primeiro filme a usar adolescentes nos papéis principais, visto que Julieta, no texto de Shakespeare, tem apenas treze anos (o que levou um aluno meu a comentar: "Esse Romeu é um pedófilo!"), e Romeu não é muito mais velho. Também foi o primeiro a mostrar os jovens amantes nus após sua noite de núpcias, mas não é só isso que torna o filme de Zeffirelli inesquecível. Seu filme foi rodado na Itália, e mostra as ruas de Verona como devem ter sido naquela época, com todo o colorido, o vestuário e as locações que nos transportam diretamente àquela época e lugar, mas com o cuidado de mostrar tudo meio sujo, sem aquele aspecto de roupas que vieram direto da costureira. O Romeu e Julieta de Zeffirelli, embora mantenha o inglês rebuscado de Shakespeare, tem um irresistível sotaque italiano.

ROMEU E JULIETA
(William Shakespeare's Romeo + Juliet)
Dirigido por Baz Luhrman



Já a versão mais recente, dirigida pelo australiano Baz Luhrmann e estrelada por Leonardo di Caprio e Claire Danes, inovou ao ambientar a história na época atual, num local chamado Verona Beach, filmado em locações no México. Os personagens se vestem e se comportam como jovens contemporâneos, usam armas em vez de espadas e tomam ácido antes de entrar numa festa, mas a grande sacada do diretor que mais tarde faria o ótimo Moulin Rouge é manter o texto original. O que muitos chamaram de defeito, devido à aparente contradição entre texto e imagem (como chamar de "espada" o que aparece na tela como um revólver), eu considero um grande achado. Pois isso faz com que o universo mostrado pelo filme seja um universo irreal, onde as pessoas se vestem como no nosso universo mas falam como no século XVI. O Romeu e Julieta de Baz Luhrmann é uma grande viagem... de ácido, se quiserem.


AMOR, SUBLIME AMOR
(West Side Story)
Dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins



Finalmente, West Side Story, lançado no Brasil com o insípido nome de Amor, sublime amor, transporta a história dos amantes infelizes para a Nova Iorque dos anos 60. No filme, um musical da Broadway adaptado para a tela por Robert Wise e Jerome Robbins, Julieta se chama Maria (Natalie Wood, que canta com a voz de Marni Nixon) e pertence a um grupo de porto-riquenhos que tenta fazer a vida na América mas enfrenta a oposição dos Jets, uma gangue à qual pertence Romeu, que aqui se chama Tony (Richard Beymer, dublado nas canções por Jimmy Bryant). As canções de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim e as incríveis cenas de dança fazem com que este seja, na minha opinião, o melhor filme musical de todos os tempos.

Embora feito em 1961, o filme é extremamente atual na maneira como mostra a dificuldade dos imigrantes de se estabelecer numa sociedade que se diz democrática mas é na verdade intolerante. O que me chamou a atenção ao rever o filme foi a maneira como os Jets e os Sharks, as gangues rivais da história, inimigos de morte, se unem cúmplices diante da autoridade policial. É como se eles entendessem que, no fundo, são todos vítimas de um sistema opressor que não aceita o diferente, incluindo-se aí não só os imigrantes, mas os jovens e os pobres de maneira geral.

Esse subtexto subversivo apenas torna ainda mais rico o que pode ser visto apenas como uma grande diversão, com seus números musicais inesquecíveis e a linda Natalie Wood no auge do talento e da beleza.

Publicado no Lost in the movies em 11 de dezembro de 2003.

E com este post dou por encerrado o resgate dos posts do meu antigo blog sobre meus filmes favoritos. A mudança de nome deste blog marca também uma nova fase: a partir do próximo post, serão textos inéditos.
enviada por will robinson






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