12/01/2005 20:37
JUVENTUDE TRANSVIADA
(Rebel without a cause)
Dirigido por Nicholas Ray
A adolescência sempre foi e sempre será uma idade complicada, idade de definições, de descobertas, de tentativas, de experiências. Adultos frequentemente esquecem como foi sua própria adolescência e daí o eterno conflito de gerações. Conflito esse que provoca o preconceito presente tanto no nome original quanto no título brasileiro deste clássico de 1955. Os jovens deste filme não são nem transviados nem rebeldes sem causa, são apenas garotos em busca de seu lugar no mundo.
Logo no começo do filme vemos o mito James Dean na pele do adolescente Jim Stark, caído no meio da rua, rindo embriagado com um pequeno brinquedo nas mãos. Só por esse começo já temos idéia da personalidade do rapaz, alguém que se embriaga até cair mas ainda conserva algo da inocência de uma criança. Jim é levado a uma delegacia onde já estão dois outros adolescentes "rebeldes": Judy (Natalie Wood) e Plato (Sal Mineo). Numa tentativa talvez um tanto simplista de explicar o comportamento dos jovens, o roteiro dá aos três problemas com os pais. Judy sente falta do carinho paterno, seu pai acha que ela já é velha demais para receber carinho e reserva todo seu afeto ao irmão menor. Jim sofre por ver o pai fraco demais e dominado pela mãe autoritária e pela avó implicante. E Plato é o mais carente de todos: simplesmente abandonado pelos pais ricos nas mãos da empregada, é o personagem mais trágico do filme. Homossexual numa época em que isso não podia ser dito no cinema, Plato se apaixona por Jim e se ressente com o interesse dele por Judy. O roteiro força um pouco a barra no sentido de mostrar Plato procurando um pai e uma mãe substitutos em Jim e Judy, apenas para disfarçar um pouco a homossexualidade do personagem; mas logo no começo do filme, quando Plato abre a porta do seu armário na escola e vemos lá o pôster de um homem no lugar que os rapazes geralmente reservam a alguma gostosona, não resta mais nenhuma dúvida sobre a orientação sexual do personagem.
Jim, por sua vez, é um jovem sem raízes, já que seus pais aparentemente optam por mudar de cidade a cada vez que o rapaz se mete em problemas. Tentando desesperadamente se enturmar, ele acaba se envolvendo com jovens de uma gangue que o desafiam a um jogo perigoso: ver quem demora mais a pular de um carro que corre em direção a um penhasco. Dessa brincadeira resulta uma morte e a união de Jim, Plato e Judy numa casa deserta, brincando um pouco de família feliz até que a realidade venha bater à porta.
Entre os garotos que perseguem o trio pela noite está o muito jovem Dennis Hopper, que anos depois escreveria, dirigiria e estrelaria o clássico dos filmes de estrada Easy Rider -- Sem destino. Tendo revisto os dois filmes mais ou menos na mesma época, tive a fantasia de que o personagem de Hopper em seu próprio filme poderia ser aquele rapazinho que dava uma de valente em Juventude transviada e anos depois ainda estaria em busca de sua própria identidade, desta vez buscando-a na estrada a bordo de uma Harley-Davidson; mas ainda não seria desta vez que a encontraria, num país que tanto prega a liberdade mas que no fundo é refratário a ela e pune os que a exercitam. Como diz o personagem de Jack Nicholson em Easy Rider a Hopper e Peter Fonda: "Eles falam o tempo todo de liberdade do indivíduo. Mas quando eles vêem um indivíduo verdadeiramente livre, eles morrem de medo."
Além de seus próprios méritos, Juventude transviada também entrou para a história do cinema como o filme que viu seus três protagonistas morrerem tragicamente. James Dean nem chegou a ver o filme pronto: morreu em 1955 num acidente de carro. Sal Mineo foi assassinado por um assaltante em 1976, e em 1981 foi a vez de Natalie Wood nos deixar, afogada ao cair de seu próprio iate. Mas não é por isso que você deve ver este filme, e sim por ser um dos melhores e mais impactantes filmes sobre o conflito de gerações.

enviada por will robinson
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