12/01/2005 20:37
JUVENTUDE TRANSVIADA
(Rebel without a cause)
Dirigido por Nicholas Ray
A adolescência sempre foi e sempre será uma idade complicada, idade de definições, de descobertas, de tentativas, de experiências. Adultos frequentemente esquecem como foi sua própria adolescência e daí o eterno conflito de gerações. Conflito esse que provoca o preconceito presente tanto no nome original quanto no título brasileiro deste clássico de 1955. Os jovens deste filme não são nem transviados nem rebeldes sem causa, são apenas garotos em busca de seu lugar no mundo.
Logo no começo do filme vemos o mito James Dean na pele do adolescente Jim Stark, caído no meio da rua, rindo embriagado com um pequeno brinquedo nas mãos. Só por esse começo já temos idéia da personalidade do rapaz, alguém que se embriaga até cair mas ainda conserva algo da inocência de uma criança. Jim é levado a uma delegacia onde já estão dois outros adolescentes "rebeldes": Judy (Natalie Wood) e Plato (Sal Mineo). Numa tentativa talvez um tanto simplista de explicar o comportamento dos jovens, o roteiro dá aos três problemas com os pais. Judy sente falta do carinho paterno, seu pai acha que ela já é velha demais para receber carinho e reserva todo seu afeto ao irmão menor. Jim sofre por ver o pai fraco demais e dominado pela mãe autoritária e pela avó implicante. E Plato é o mais carente de todos: simplesmente abandonado pelos pais ricos nas mãos da empregada, é o personagem mais trágico do filme. Homossexual numa época em que isso não podia ser dito no cinema, Plato se apaixona por Jim e se ressente com o interesse dele por Judy. O roteiro força um pouco a barra no sentido de mostrar Plato procurando um pai e uma mãe substitutos em Jim e Judy, apenas para disfarçar um pouco a homossexualidade do personagem; mas logo no começo do filme, quando Plato abre a porta do seu armário na escola e vemos lá o pôster de um homem no lugar que os rapazes geralmente reservam a alguma gostosona, não resta mais nenhuma dúvida sobre a orientação sexual do personagem.
Jim, por sua vez, é um jovem sem raízes, já que seus pais aparentemente optam por mudar de cidade a cada vez que o rapaz se mete em problemas. Tentando desesperadamente se enturmar, ele acaba se envolvendo com jovens de uma gangue que o desafiam a um jogo perigoso: ver quem demora mais a pular de um carro que corre em direção a um penhasco. Dessa brincadeira resulta uma morte e a união de Jim, Plato e Judy numa casa deserta, brincando um pouco de família feliz até que a realidade venha bater à porta.
Entre os garotos que perseguem o trio pela noite está o muito jovem Dennis Hopper, que anos depois escreveria, dirigiria e estrelaria o clássico dos filmes de estrada Easy Rider -- Sem destino. Tendo revisto os dois filmes mais ou menos na mesma época, tive a fantasia de que o personagem de Hopper em seu próprio filme poderia ser aquele rapazinho que dava uma de valente em Juventude transviada e anos depois ainda estaria em busca de sua própria identidade, desta vez buscando-a na estrada a bordo de uma Harley-Davidson; mas ainda não seria desta vez que a encontraria, num país que tanto prega a liberdade mas que no fundo é refratário a ela e pune os que a exercitam. Como diz o personagem de Jack Nicholson em Easy Rider a Hopper e Peter Fonda: "Eles falam o tempo todo de liberdade do indivíduo. Mas quando eles vêem um indivíduo verdadeiramente livre, eles morrem de medo."
Além de seus próprios méritos, Juventude transviada também entrou para a história do cinema como o filme que viu seus três protagonistas morrerem tragicamente. James Dean nem chegou a ver o filme pronto: morreu em 1955 num acidente de carro. Sal Mineo foi assassinado por um assaltante em 1976, e em 1981 foi a vez de Natalie Wood nos deixar, afogada ao cair de seu próprio iate. Mas não é por isso que você deve ver este filme, e sim por ser um dos melhores e mais impactantes filmes sobre o conflito de gerações.

enviada por will robinson
31/12/2004 18:32
O PADRE
(Priest)
Dirigido por Antonia Bird
Depois de assistir o lindo Má Educação, do Almodóvar, me deu vontade de rever este belo drama de estréia da inglesa Antonia Bird na direção.
Logo no começo do filme, vemos o padre Ellerton (James Ellis) pegando uma cruz e investindo com ela contra a janela da casa do bispo (Rio Fanning). Ficamos logo curiosos para conhecer a história desse padre e os motivos de sua revolta, mas na verdade o filme não é sobre ele e sim sobre o jovem padre que o substitui, Greg Pilkington (o lindo Linus Roache, que recentemente pôde ser visto como o vilão do desastroso Os Esquecidos). Logo que chega, Greg já mostra que é o oposto do outro padre da paróquia, Mathew Thomas (Tom Wilkinson). Enquanto este se preocupa com as questões sociais e procura ser um homem informal e carinhoso em sua relação com os paroquianos, Greg mostra ser um padre conservador e rígido, embora tenha que aceitar o fato de seu colega viver maritalmente com Maria (Cathy Tyson), uma mulher negra. Mas o conservadorismo de Greg é apenas uma fachada para esconder seu segredo: o rapaz é homossexual e de vez em quando troca a batina por uma jaqueta de couro e vai se divertir em bares gays, onde conhece e se apaixona pelo jovem Graham (Robert Carlyle, que depois faria uma bela carreira em filmes como Trainspotting e Ou tudo ou nada).
Esse, porém, não é o único conflito do padre Greg. Ao ouvir a confissão da adolescente Lisa (Christine Tremarco), Greg descobre que ela sofre abuso sexual por parte do pai (Robert Pugh), sem que a mãe (Lesley Sharp), uma ativa colaboradora da igreja, desconfie de nada. Devido ao dogma do segredo da confissão, Greg nada pode fazer para diminuir o sofrimento da garota, e as coisas só pioram quando ele é pego em flagrante com seu namorado.
O padre não é o primeiro nem será o último filme a explorar as contradições da Igreja Católica, mas com certeza é um dos mais sensíveis e delicados ao tratar dos tabus do celibato clerical e do segredo da confissão. Greg em nenhum momento questiona sua vocação, e numa conversa com o padre Ellerton, o revoltado do começo do filme, este lhe diz com muita propriedade que celibato e vocação são duas coisas muito diferentes. No mesmo diálogo, Greg revela ao colega que quando olha para a imagem de Cristo pregado na cruz, em busca de consolo, tudo o que ele vê é um homem nu, extremamente atraente! Ou seja, o filme de Antonia Bird não tem medo de colocar o dedo na ferida e escandalizar os católicos mais pudicos, o que realmente aconteceu quando do lançamento do filme, a ponto do protagonista Linus Roache ter de se afastar do cinema por alguns anos e ir estudar meditação na Índia, a fim de fugir da polêmica.
O padre não tem exatamente um final feliz e apaziguador, mas é um dos finais mais bonitos e catárticos da história do cinema.
enviada por will robinson
10/08/2004 22:04
PACIENTE ZERO
(Zero patience)
Dirigido por John Greyson
"If patience is a virtue, then I`m a sinner from hell
Cause we only want one thing:
We just want to be well
If patience is a virtue, then I`ve got none."
(John Greyson, Glen Schellenberg - Zero Patience)
Vi esse filme na época em que foi exibido aqui em São Paulo, em 1993 ou 94, e gostei tanto que depois tentei inutilmente encontrá-lo em vídeo ou DVD. Isso até sexta-feira passada, quando o filme foi escolhido para abrir a mostra especial de filmes sobre AIDS no Espaço Unibanco e assim tive a chance de revê-lo e confirmar a ótima impressão que tive dele.
Na época em que foi exibido, o filme foi recebido a pedradas pela crítica, que não achou graça dessa versão musical e paródica sobre o surgimento da AIDS. Vendo o filme hoje constato que ele estava muito à frente de seu tempo, inclusive levantando questões bastante atuais como o alto preço das drogas contra a doença e o direito dos pacientes a uma medicação gratuita, questão na qual o Brasil tem sido pioneiro. Talvez a produção canadense não tenha agradado a princípio por ter sido feita numa época em que AIDS ainda era sinônimo de morte certa e lenta, e muita gente não suportar ver o assunto tratado com humor. Na minha opinião, e sei que muita gente não concorda, acho que o humor é uma maneira bastante saudável de se tratar de um assunto tabu -- desde que esse humor não seja grosseiro, apelativo ou preconceituoso.
Paciente Zero é uma fantasia que parte do princípio de que o aventureiro e escritor inglês do século XIX, sir Richard Burton (John Robinson), que entre outras coisas traduziu as Mil e uma Noites e o Kama Sutra para o inglês, não só ainda está vivo como é jovem e belo graças a uma Fonte da Juventude e vive no Canadá como taxidermista de um museu de história natural. Entediado com seu trabalho, Burton, que é chamado de Dick (ou Pinto na tradução brasileira) pelos mais íntimos, resolve investigar a vida do comissário de bordo franco-canadense que era considerado o primeiro homem a trazer a AIDS para a América, e por isso passou para a História como o Paciente Zero (o lindo Normand Fauteux). Sua pesquisa acaba trazendo o fantasma de Zero do além para desmistificar os mitos que cercam a doença e acabar com o preconceito em relação ao tema -- e ainda, de quebra, seduzir o vitoriano sir Richard.
Essa história é contada no formato de um musical camp com uma sonoridade de teclados-anos-80, e as canções servem para que alguns dos "culpados" pela epidemia da AIDS, incluindo gays, toxicômanos, macacos africanos e até mesmo o vírus HIV, na pele de uma drag queen interpretada pelo ator Michael Callen, que morreu da doença logo após as filmagens e a quem o filme é dedicado, possam se defender e desmentir a idéia de que precise haver um "culpado" por uma doença. A ótima trilha sonora, assinada pelo diretor John Greyson e por Glen Schellenberg, inclui até um impagável dueto entre dois cus -- isso mesmo, só vendo pra acreditar!
Paciente Zero pode não ser um filme para todos os paladares, mas no mínimo tem o mérito de abordar um tema polêmico e delicado de uma maneira totalmente original e única.
"I`m positive I`m here
I`m positive I care
I`m positive that there`s nothing to be sure of
I'm positive, I`m positive, I`m positive I'm alive
I'm positive that I`m going to die...
Sometime"
(John Greyson, Glen Schellenberg - Positive)
enviada por will robinson
10/07/2004 20:39
Como uma das minhas turmas estava lendo uma versão simplificada de Romeu e Julieta, quis rever as três mais famosas versões cinematográficas da mais famosa história de amor, a fim de selecionar algumas cenas para mostrar a meus alunos. E constatei que cada uma delas é revolucionária a seu modo.
ROMEU E JULIETA
(Romeo & Juliet)
Dirigido por Franco Zeffirelli
A versão dirigida por Franco Zeffirelli em 1968, com Leonard Whiting e Olivia Hussey no papel dos amantes de Verona, foi o primeiro filme a usar adolescentes nos papéis principais, visto que Julieta, no texto de Shakespeare, tem apenas treze anos (o que levou um aluno meu a comentar: "Esse Romeu é um pedófilo!"), e Romeu não é muito mais velho. Também foi o primeiro a mostrar os jovens amantes nus após sua noite de núpcias, mas não é só isso que torna o filme de Zeffirelli inesquecível. Seu filme foi rodado na Itália, e mostra as ruas de Verona como devem ter sido naquela época, com todo o colorido, o vestuário e as locações que nos transportam diretamente àquela época e lugar, mas com o cuidado de mostrar tudo meio sujo, sem aquele aspecto de roupas que vieram direto da costureira. O Romeu e Julieta de Zeffirelli, embora mantenha o inglês rebuscado de Shakespeare, tem um irresistível sotaque italiano.
ROMEU E JULIETA
(William Shakespeare's Romeo + Juliet)
Dirigido por Baz Luhrman
Já a versão mais recente, dirigida pelo australiano Baz Luhrmann e estrelada por Leonardo di Caprio e Claire Danes, inovou ao ambientar a história na época atual, num local chamado Verona Beach, filmado em locações no México. Os personagens se vestem e se comportam como jovens contemporâneos, usam armas em vez de espadas e tomam ácido antes de entrar numa festa, mas a grande sacada do diretor que mais tarde faria o ótimo Moulin Rouge é manter o texto original. O que muitos chamaram de defeito, devido à aparente contradição entre texto e imagem (como chamar de "espada" o que aparece na tela como um revólver), eu considero um grande achado. Pois isso faz com que o universo mostrado pelo filme seja um universo irreal, onde as pessoas se vestem como no nosso universo mas falam como no século XVI. O Romeu e Julieta de Baz Luhrmann é uma grande viagem... de ácido, se quiserem.
AMOR, SUBLIME AMOR
(West Side Story)
Dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins
Finalmente, West Side Story, lançado no Brasil com o insípido nome de Amor, sublime amor, transporta a história dos amantes infelizes para a Nova Iorque dos anos 60. No filme, um musical da Broadway adaptado para a tela por Robert Wise e Jerome Robbins, Julieta se chama Maria (Natalie Wood, que canta com a voz de Marni Nixon) e pertence a um grupo de porto-riquenhos que tenta fazer a vida na América mas enfrenta a oposição dos Jets, uma gangue à qual pertence Romeu, que aqui se chama Tony (Richard Beymer, dublado nas canções por Jimmy Bryant). As canções de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim e as incríveis cenas de dança fazem com que este seja, na minha opinião, o melhor filme musical de todos os tempos.
Embora feito em 1961, o filme é extremamente atual na maneira como mostra a dificuldade dos imigrantes de se estabelecer numa sociedade que se diz democrática mas é na verdade intolerante. O que me chamou a atenção ao rever o filme foi a maneira como os Jets e os Sharks, as gangues rivais da história, inimigos de morte, se unem cúmplices diante da autoridade policial. É como se eles entendessem que, no fundo, são todos vítimas de um sistema opressor que não aceita o diferente, incluindo-se aí não só os imigrantes, mas os jovens e os pobres de maneira geral.
Esse subtexto subversivo apenas torna ainda mais rico o que pode ser visto apenas como uma grande diversão, com seus números musicais inesquecíveis e a linda Natalie Wood no auge do talento e da beleza.
Publicado no Lost in the movies em 11 de dezembro de 2003.
E com este post dou por encerrado o resgate dos posts do meu antigo blog sobre meus filmes favoritos. A mudança de nome deste blog marca também uma nova fase: a partir do próximo post, serão textos inéditos.
enviada por will robinson
29/06/2004 20:32
PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO
(The adventures of Priscilla, queen of the desert)
Dirigido por Stephan Elliot
A drag queen Mitzi (Hugo Weaving), ou Tick quando está "à paisana", cansada da vida em Sidney, recebe um telefonema da ex-mulher lésbica Marion (Sarah Chadwick), gerente de um hotel em Alice Springs, convidando-o para apresentar seu show de transformistas no hotel. Tick convida a colega Felicia (Guy Pearce), ou Adam, uma drag desbocada e muito louca, e a transexual Bernardette (Terence Stamp), que acaba de ficar viúva, para atravessarem o país num ônibus psicodélico batizado de Priscilla, rainha do deserto. Nessa viagem, os três encontram preconceito, violência e também a inesperada simpatia de um grupo de aborígenes. Bernardette encontra até o amor, na pessoa do mecânico Bob (Bill Hunter), e Tick é obrigado a se confrontar com seu medo de assumir a paternidade do garoto Benji (Mark Holmes).
Grande parte do humor de Priscilla é derivado do contraste entre figuras tão urbanas quanto as drag queens e o rústico e inóspito deserto australiano. Priscilla funciona porque seus personagens são complexos e extremamente bem construídos. O filme não paternaliza os personagens, mostrando-os com todas as suas contradições, mesquinharias e humanidade, ao contrário por exemplo daquela terrível imitação americana batizada de Para Wong Foo, obrigada por tudo, Julie Newmar.
A trilha sonora recheada do que há de mais gay na música disco dos anos 70, incluindo de Gloria Gaynor e Village People ao grupo Abba, e os figurinos inacreditáveis contribuem para a delícia que é assistir esse filme. Algumas das cenas inesquecíveis: Adam no teto do ônibus de vestido de cauda prateado dublando uma ária de Verdi; o aborígene (Alan Dargin) que se monta para dublar I will survive; a oriental desbocada (Julia Cortez) que apresenta um infame número envolvendo bolinhas de ping-pong; o "cocozinho" que Adam guarda como se fosse uma relíquia de uma das cantoras do Abba; as três amigas subindo as rochas de vestido e tênis; e o espetáculo que apresentam no hotel, com figurinos que "homenageiam" a fauna e a flora australianas.
Priscilla é um filme que realmente celebra as diferenças e a diversidade, com humor e sem demagogia.
Publicado no Lost in themovies no dia 21 de julho de 2003.
enviada por will robinson
19/06/2004 18:08
ASSUNTO DE MENINAS
(Lost and delirious)
Dirigido por Léa Pool
Lady Macbeth -- "Come, you spirits
That tend on mortal thoughts, unsex me here,
And fill me, from the crown to the toe, top-full
Of direst cruelty! make thick my blood,
(...) come to my woman's breasts,
And take the milk for gall, you murdering ministers,
Wherever in your sightless substances
You wait on nature's mischief!"
(William Shakespeare, Macbeth, act I, scene V)
Mary (Mischa Barton), uma garota que perdeu a mãe, é enviada pelo pai e pela madrasta para estudar num colégio interno feminino. Lá ela divide o quarto com as amigas Paulie (Piper Perabo) e Victoria, ou Tory (Jessica Paré). Mary, que também atende pelo apelido de Mouse, por se comportar como um ratinho assustado, não demora a descobrir que as duas companheiras de quarto têm um caso secreto, mas não se importa muito com isso. Até que as duas são surpreendidas na cama pela irmã menor de Tory. Esta, então, inventa uma desculpa para a irmã, se afasta de Tory e passa a namorar um colega de seu irmão, Jake (Luke Kirby). Paulie não se conforma com a decisão da amiga e entra em surto.
Essa é a trama, mas há vários detalhes que contribuem para que as personagens sejam extremamente ricas e cativantes. Todas as garotas têm algum problema mal-resolvido com as respectivas famílias: Mary sente culpa por não se lembrar bem do rosto da mãe, não se dá com a madrasta e se sente abandonada pelo pai, a ponto de procurar uma figura paterna no jardineiro da escola (Graham Greene); Tory tem tanto medo da reação dos pais carolas à sua relação com Paulie que prefere renunciar a seu amor que enfrentar a família; e Paulie, que é adotada, tenta encontrar a mãe biológica, uma prostituta que foi obrigada a abrir mão da filha recém-nascida, mas descobre que a mãe não quer conhecê-la. O paradoxal é que Mary é a única das três cuja mãe está morta, mas tem certeza de que foi amada por ela, e isso fará toda a diferença no final.
Mary é a narradora da história, uma personagem que mais observa do que age, mas fica claro que estamos diante da delicada passagem de menina a mulher, que nesse caso se dá através da amizade com duas mulheres apaixonadas. Paulie, no entanto, é a personagem mais interessante do filme. Logo no começo, ela e Tory se denominam as "garotas perdidas", versão feminina dos garotos perdidos de Peter Pan, e uma delas completa: "Lost and delirious" (perdidas e delirantes, o título original do filme). Pois Paulie se torna cada vez mais delirante à medida que a história avança. Ela adota um falcão machucado e se empenha em curá-lo para que ele possa voar, e o animal acaba se tornando uma metáfora até um tanto óbvia demais para sua natureza rebelde e indomável. Por outro lado, ela se inspira no monólogo de Lady Macbeth que reproduzi acima, em que a ambiciosa rainha de Shakespeare pede aos espíritos do mal que lhe tirem o sexo, que lhe engrossem o sangue, que transformem seu leite em fel, para que assim ela perca a fraqueza feminina e possa realizar seus intentos.
A certa altura do filme, Mary pede a Paulie que esqueça Tory, pois esta "não é lésbica". Paulie reage: "Lésbica? Nós não somos lésbicas!" "Mas você é uma garota apaixonada por outra garota..." "Não, eu sou Paulie que ama Tory!" Esse diálogo e o monólogo de Lady Macbeth, na minha opinião, são as chaves para se entender a personalidade de Paulie. Ela não se aceita como homossexual; se se aceitasse, talvez entendesse que aquele não era o fim do mundo, que outras mulheres interessantes apareceriam no futuro. Mas ela acredita que sua relação com Tory é única, e por isso não se conforma em perdê-la. Por outro lado, também tem dificuldades em se aceitar como mulher, talvez por não ter tido uma mãe que funcionasse como modelo feminino, e daí sua obsessão com o texto de Shakespeare.
Assunto de meninas é um título infeliz, pois dá uma impressão de que o filme canadense é mais uma comedinha teen GLS. Ledo engano: estamos diante de um belo filme, que retrata todo o fogo e paixão que podem consumir um coração adolescente.
Publicado no Lost in the movies no dia 4 de julho de 2003.
enviada por will robinson
28/05/2004 20:29
TRAÍDOS PELO DESEJO
(The crying game)
Dirigido por Neil Jordan
Jody (Forest Whitaker) é um soldado inglês a serviço na Irlanda do Norte. Seduzido por Jude (Miranda Richardson), que é na verdade uma terrorista do IRA, ele é sequestrado pelo grupo, que quer trocá-lo por um outro terrorista preso na Inglaterra. Durante o cativeiro, Jody acaba fazendo amizade com um de seus carcereiros, Fergus (Stephen Rea), a quem pede que, caso algo lhe aconteça, procure e tome conta de sua namorada Dil (Jaye Davidson).
Depois da morte de Jody, Fergus, amargurado pela culpa e pelo remorso, faz o que prometeu: procura Dil, sem revelar quem é na verdade, e se apaixona por ela, sem saber que Dil não é exatamente uma mulher, pelo menos não no sentido biológico. Como se não bastasse lidar com esse dilema, Fergus ainda tem de encarar seus ex-colegas do IRA, Jude e Peter (Adrian Dunbar), que passam a ameaçá-lo e a Dil se Fergus não voltar às ações terroristas.
Na época de seu lançamento, fez-se muito alarde em torno do suposto "segredo" do filme, que seria a identidade de Dil. Esse segredo não funcionou para os brasileiros, talvez mais acostumados e mais abertos em relação a ambiguidades sexuais que americanos e ingleses: assim que Jaye Davidson entra em cena, todos no cinema gritavam "Aaaaaaahhhhh!", reconhecendo na hora que se tratava de um homem. Tanta ênfase neste detalhe do filme acabou prejudicando a compreensão do que é muito mais do que um filme sobre um mal-entendido. Pois Traídos pelo desejo fala não só da possibilidade de se amar alguém mesmo sem saber tudo sobre a identidade daquela pessoa, inclusive o sexo (e Fergus não é o único a cair nessa armadilha, pois Dil se apaixona pelo homem que é em parte responsável pela morte de seu namorado), mas também sobre a questão da natureza do ser humano, através da fábula do escorpião e do sapo, repetida duas vezes no filme.
"Um escorpião pede a um sapo que o carregue nas costas para atravessar um rio. O sapo nega, com medo de uma ferroada fatal, mas o escorpião argumenta que se ele atacar o sapo, ambos morrerão, portanto o sapo não correria perigo. O sapo aceita o argumento e carrega o escorpião nas costas, mas no meio do rio sente a ferroada fatal. Enquanto ambos afundam para a morte, o sapo ainda tem tempo de perguntar: 'Por quê?' 'Não pude evitar, é a minha natureza', responde o escorpião."
Curiosidades:
a) Jaye Davidson nunca havia trabalhado como ator antes desse filme. Descoberto pelo diretor Neil Jordan numa festa, Jaye, que não é drag queen na vida real, ganhou de cara uma indicação ao Oscar, mas além desse filme fez apenas a bomba Stargate, voltando à sua profissão de produtor de moda.
b) O título original do filme, The crying game, é tirado de uma antiga canção pop inglesa, que aparece no filme em três gravações diferentes, inclusive regravada por Boy George especialmente para o filme, com produção dos Pet Shop Boys. Tanto o vocalista do Culture Club quanto os Pet Shop Boys são figuras atuantes na cena gay londrina.
I know all there is to know about the crying game
I've had my share of the crying game
First there are kisses, then there are sighs
And then before you know where you are, you're saying good-bye
Don't want no more of the crying game...
(Geoff Stephens)
Publicado originalmente no dia 18 de junho de 2003 no Lost in the movies.
enviada por will robinson
14/05/2004 22:01
DELICADA ATRAÇÃO
(Beautiful Thing)
Dirigido por Hettie MacDonald
Sinceramente, não gosto da mania de certos distribuidores brasileiros de darem nomes a filmes sobre homossexualismo que de certa forma reforçam o preconceito que pretendem combater: coisas como "Estranha forma de amar", "Um amor diferente" ou coisas assim. Por que uma relação entre dois rapazes tem de ser "delicada", ou mais delicada do que qualquer outra? Prefiro o nome original, explicado assim pelo autor da peça original e roteirista do filme, Jonathan Harvey: "Quis mostrar apenas que coisa linda (a beautiful thing) pode ser o amor entre duas pessoas, sejam de que sexo forem."
As duas pessoas em questão são dois adolescentes, Jamie (Glen Barry) e Ste (Scott Neal), que são colegas de escola e vizinhos de porta num prédio em Thamesmead, um bairro de Londres habitado pela chamada "working class", a classe média baixa inglesa, com seus hábitos e sua maneira de falar bastante diferentes da "middle class", mesmo hoje. Jamie é um rapaz tímido e sensível que mora com a mãe Sandra (Linda Henry), que trabalha como gerente de um pub e namora um rapaz mais novo e mais culto que ela, Tony (Ben Daniels), o que ocasiona alguns choques culturais entre os dois. Já Ste gosta de esportes mas sofre abusos por parte do pai alcoólatra e do irmão hooligan. A única amiga de ambos é a vizinha Leah (a ótima Tameka Empson, que rouba todas as cenas em que aparece), uma garota negra que abandonou a escola e vive se drogando e se embriagando em raves, mas é fanática pela música da falecida cantora Mama Cass Elliot, do grupo The Mamas and The Papas, o que faz com que todas as canções da trilha sonora sejam dela ou do grupo que a tornou famosa.
Como Ste é frequentemente espancado pelo pai e pelo irmão, vai se refugiar no apartamento vizinho, onde divide a cama com Jamie. Tal proximidade acaba se traduzindo em paixão. A diretora Hettie MacDonald sabe dosar sensibilidade, humor e um erotismo bastante delicado (agora sim, o adjetivo se aplica) nas cenas entre os dois garotos. Basta dizer que o primeiro beijo deles acontece enquanto na sala a mãe de Jamie e seu namorado assistem A noviça rebelde, justo na cena em que o jovem carteiro namora a filha mais velha do capitão e canta pra ela Sixteen going on seventeen.
Embora o filme fale de jovens sem grandes perspectivas, que sofrem abusos em casa e na escola e ainda têm que enfrentar o preconceito por serem gays, Beautiful thing é um dos filmes mais alto-astral que eu já vi, e a trilha sonora com a música californiana do The Mamas and the Papas contribui muito para esse clima. O final do filme, em sua simplicidade, é um dos finais mais bonitos do cinema em todos os tempos, mas eu não vou contar pra deixar vocês com vontade de ver o filme.
Curiosidades sobre The Mamas and the Papas:
a) a personagem Sandra menciona no filme que Mama Cass teria morrido engasgada com um sanduíche. Esse é um dos mitos mais famosos do mundo da música pop, mas não tem nenhum fundo de verdade. A cantora na verdade morreu de um ataque cardíaco sofrido logo após um show em Londres, em 1974, com apenas 32 anos. O autor da peça que deu origem ao filme, Jonathan Harvey, explica no encarte do cd com a trilha sonora que quando ele era criança sua mãe lhe contava essa história para que ele comesse devagar e não se engasgasse, mas só conseguia fazer o garoto ficar se perguntando por que diabos uma cantora se chamava Mama?!!!
b) outro mito sobre Mama Cass mencionado no filme é que a cantora a princípio não seria aceita no grupo de John Philips porque sua voz não conseguia atingir notas mais altas, e que seu alcance vocal mudou depois que ela bateu a cabeça num cano, em um acidente caseiro. A verdade, bem mais prosaica, é que John Philips hesitava em incluir a gordinha Cass em sua banda por achar que o contraste com a loira e esbelta Michelle Philips poderia "assustar" o público. Felizmente, nesse caso, venceu o talento.
c) eu tive o privilégio de assistir um show do The Mamas and the Papas, em Santos, no começo dos anos 90. As duas cantoras originais, Mama Cass e Michelle Philips (que hoje é atriz de televisão) haviam sido substituídas por cantoras da Broadway, e Denny Doherty foi substituído pelo também lendário Scott McKenzie, intérprete do hino dos anos 60 San Francisco (When you come to San Francisco/ Be sure to wear some flowers in your hair...). Infelizmente, o único integrante original do grupo presente na turnê brasileira, o já falecido fundador John Philips, não se apresentou em Santos porque havia tido uma indigestão ou algo parecido. Mesmo assim, foi um show inesquecível!
You've got to
make your own kind of music
sing your own special song
make your own kind of music
even if nobody else sings along
(Barry Mann/ Cynthia Weil)
Publicado originalmente no dia 26 de maio de 2003, no Lost in the movies.
E não deixem de conferir meu novo blog, intitulado muito humildemente Music is my air, movies my food, art my life.
enviada por will robinson
07/05/2004 19:42
RUMBLE FISH -- O SELVAGEM DA MOTOCICLETA
(Rumble Fish)
Dirigido por Francis Ford Coppola
Rumble Fish O selvagem da motocicleta, de Francis Ford Coppola, foi um dos filmes que mais marcaram minha adolescência. Por isso, quando vi o DVD à venda nas bancas, não pensei duas vezes. Antes de rever o filme, aproveitei para ler o livro de Susan E. Hinton no qual o filme foi baseado. Tinha comprado o livro na época do filme, editado pela Brasiliense numa coleção chamada Cantadas literárias, voltada aos adolescentes, mas tinha esquecido o livro no fundo da estante e só agora me lembrei dele.
O filme é bem fiel ao livro, afinal o roteiro do filme foi co-escrito pela autora, que também escreveu o livro que deu origem ao filme Outsiders vidas sem rumo, dirigido por Coppola na mesma época de Rumble fish e com o mesmo Matt Dillon no elenco. A principal diferença entre livro e filme é a idade dos personagens: no livro, o protagonista Rusty James, vivido por Matt Dillon no filme, tem apenas 14 anos, enquanto seu irmão mais velho, o Motoqueiro interpretado por Mickey Rourke (no tempo em que ele ainda sabia atuar) tem 17. Realmente, faz muito mais sentido ver os personagens tão novos, afinal o livro trata de adolescentes sem muita perspectiva, criados sem mãe e por um pai alcoólatra (Dennis Hopper), cuja única referência de amizade são as gangues.
O Motoqueiro é um rapaz inteligente e sonhador, mas extremamente perturbado. Sua falta de rumo é simbolizada por um daltonismo que o faz enxergar em preto e branco e uma ocasional surdez que o deixam um tanto isolado dos outros. O momento mais bonito do livro é quando Rusty James, que vivia repetindo querer ser igual ao irmão adorado, se vê por um momento daltônico e surdo, entendendo então que o irmão vivia numa espécie de bolha enlouquecedora. Por isso a decisão do diretor de fazer seu filme em preto e branco, onde as únicas coisas coloridas são os peixes de briga (os rumble fish do título original), os quais têm de permanecer isolados uns dos outros para não se atacarem até a morte. Aposto que soltos no rio eles não brigariam, diz o Motoqueiro, numa referência óbvia à situação vivida pelos jovens naquela pequena cidade.
Além da linda fotografia em preto e branco, os enormes relógios, as nuvens e a fumaça recorrente, o jogo de luz e sombras, são outras características que tornam o filme uma experiência visual inesquecível. Como atrativo adicional para os cinéfilos, há a oportunidade de ver ou rever no frescor da juventude futuros astros como Nicolas Cage, Lawrence Fishburne, Diane Lane e até uma ainda criança Sofia Coppola.
Originalmente publicado no Lost in the Movies no dia 12 de maio de 2003.
enviada por will robinson
30/04/2004 19:13
BILLY ELLIOT
Dirigido por Stephen Daldry
Billy Elliot (o ótimo Jamie Bell) é um garoto de onze anos que acabou de perder a mãe e mora num bairro pobre de Durham, uma cidade no norte da Inglaterra, com o pai Jackie (Gary Lewis), o irmão Tony (Jamie Draven) e a avó doente (Jean Heywood). Tanto o pai quanto o irmão de Billy trabalham em minas de carvão, mas o ano é 1984 e os mineiros acabam de iniciar uma greve contra o governo neoliberal de Margareth Thatcher, que vai durar um ano e terminar com a derrota dos mineiros e o fim de um estilo de vida -- um momento histórico que alguns consideram como um dos mais importantes na história da Inglaterra desde a Segunda Guerra Mundial. (A respeito desse período, o cantor Sting, que é da mesma região, escreveu uma bela canção em homenagem aos mineiros: We work the black seam together, em seu primeiro álbum-solo, The dream of the blue turtles.)
Claro que os personagens não têm consciência de estar vivendo um momento histórico, apenas tentam levar a vida da melhor forma que conseguem. Jackie é um homem amargurado pela perda da esposa e não tem muita esperança na vitória do movimento, embora preste toda a solidariedade a seus companheiros. Já o filho mais velho, Tony, não só é um entusiasta da greve como enfrenta a polícia abertamente, o que lhe custa algumas pancadas e uma noite na prisão. Quanto ao pequeno Billy, sua rotina se divide entre a escola, os cuidados com a avó e as aulas de boxe, onde usa as mesmas luvas que acompanham os homens da família há gerações.
Só que Billy é uma negação no boxe. Seu verdadeiro interesse, como ele descobre um dia em que o professor de boxe divide o ginásio com as aulas de balé da Sra. Wilkinson (Julie Walters), é a dança. No decorrer do filme, veremos Billy enfrentar toneladas de preconceito dessa comunidade rude e machista para perseguir uma vocação que vai se tornar cada vez mais forte, a despeito da oposição familiar. Seu único aliado nessa batalha, além da dedicada mas impaciente professora, é o amigo Michael (Stuart Wells), o qual retribui a confiança de Billy com outra revelação surpreendente: ele gosta de se vestir de menina quando ninguém está olhando.
A amizade desses dois meninos é uma das coisas mais bonitas do filme. Billy resiste tanto às investidas de Michael quanto à paquera da filha da professora de balé, Debbie (Nicola Blackwell), o que torna sua sexualidade uma incógnita para os espectadores -- e que importância tem isso, na verdade? O importante é que a amizade e o carinho que tem por Michael não mudam em nada com a revelação de que o melhor amigo é gay, revelando uma maturidade ausente em muita gente bem mais velha.
As cenas de dança são outro ponto alto do filme: Jamie Bell, que se especializou em sapateado, foi orientado a não usar passos ou coreografias de balé clássico, mas em expressar através da dança a personalidade de Billy. O resultado é simplesmente contagiante!
Billy Elliot é um filme que diverte e emociona, que faz rir e chorar com a mesma facilidade. Mas acima de tudo é um filme sobre a importância de se seguir o próprio coração, um lugar-comum em inúmeros filmes, mas raramente tão bem descrita como aqui.
Curiosidades:
a) a trilha sonora é quase toda de músicas do glam rock dos anos 70 e punk rock dos anos 80. Há várias canções do T-Rex, além de The Clash, The Jam e Style Council. A cena em que Tony tenta fugir da polícia não seria a mesma sem London Calling tocando ao fundo.
b) Billy Elliot é o primeiro filme do diretor Stephen Daldry, que vinha de uma premiada carreira no teatro. Seu filme seguinte seria nada menos que o excelente As horas.
c) Adam Cooper, que faz Billy aos 25 anos, é realmente bailarino do Royal Ballet e a cena final do filme é de uma verdadeira produção de O lago dos cisnes, com Adam no papel principal.
d) Jamie Bell, que foi selecionado para o papel principal depois de testes com mais de dois mil garotos, ganhou um prêmio BAFTA (o Oscar inglês) de melhor ator por este filme, derrotando ninguém menos que Russel Crowe, Tom Hanks e Geoffrey Rush.
I was dancing when I was twelve
I was dancing when I was twelve
I danced myself out of the womb
I danced myself out of the womb
Is it strange to dance so soon ?
Is it strange to dance so soon ?
(Marc Bolan - Cosmic Dancer)
Publicado originalmente no dia 2 de junho de 2003 no lost in the movies.
enviada por will robinson
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